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Um dia, toma a decisão de consultar um médico. Tem andado a sentir-se em baixo, triste, sem energia para a família, amigos e trabalho. A vida parece um enorme buraco negro ao qual sente que não consegue sair. Não consegue aguentar mais e marca a consulta. Após 15 minutos de consulta, o médico diz que está com uma perturbação e que vai ter de tomar medicamentos. Você sai da sala com a esperança: "É agora que a minha vida finalmente vai mudar!". Passa um, dois, três meses e você não tem a evolução que desejou. Afinal o que aconteceu? Foi enganada?

 Cada vez que consultamos um médico, o cenário torna-se vulgar. Passamos 10 ou 15 minutos em consulta, se for num hospital público ou centro de saúde, com pouco ou nenhuma observação. Queixamo-nos dos nossos sintomas, o médico olha para nós, diz um diagnóstico com plena convicção e passa uma série de medicamentos que, supostamente, vai resolver a situação. Se isto acontece em mais especialidades médicas, a saúde mental não é excepção.

Portugal é um dos países europeus que alcançou o top dos rankings no consumo de psicofármacos, medicamentos específicos para o tratamento de perturbações mentais. Os mais conhecidos são os reguladores de humor, vulgos anti-depressivos e ansióliticos. A cada ano que passa, este número tem tendência a aumentar, sendo que o mercado possui uma variedade de escolhas, ultrapassando apenas a fase dos populares Prozac e Xanax. 

Psicofármacos surgem no ponto mais alto da Psiquiatria, como alternativa de tratamento para as perturbações mentais. A isto se deve a teoria biológica das perturbações, ou seja, todas as perturbações têm uma origem e acção química no organismo, alterando processos hormonais ligações cerebrais. A medicação teria um efeito regulador desses processos e, a partir do momento em que isso acontecia, a perturbação deixaria de existir. Esta posição tem sido muito polémica, tanto na área da Psiquiatria como em Psicologia. Hoje em dia, sabemos que muitas perturbações têm origem numa séria de variáveis, tanto biológicos, como genéticas, sociais e psicológicas. A teoria biológica já teve mais força, contudo continua a ser apoiada pela Medicina e industrias farmacêuticas. Vamos ser sinceros, são quem mais têm a ganhar. Mas então, como é que surgem?

Para que qualquer medicamento seja comercializado, tem ser aprovado com base na sua eficácia. Psicofármacos não são excepção. Para que tal ocorra, o medicamento a aprovar tem de se mostrar mais eficaz do que o Efeito Placebo. De uma forma simples, o Efeito Placebo ocorre na ingestão de qualquer substância, sem propriedades farmacológicas, apresentando melhorias substanciais na pessoa. Este efeito possui características fisiológicas e psicológicas. Fisiológicas já que está provado que os medicamentos placebo podem alterar a fisiologia do organismo. Psicológico pois ocorre pela crença da pessoa em que o medicamento que está a tomar pode, de facto, fazer com que se sinta melhor. O organismo vai agir em função dessa crença, fazendo com que processos fisiológicos de recuperação aconteçam, mais facilmente. Este efeito encontra-se amplamente estudado na literatura médica e psicológica e, mais recentemente, uma série de estudos realizados numa parceria entre investigadores americanos e portugueses demonstram que o efeito placebo ocorre com a mesma eficácia, quer a pessoa saiba ou não que está a ingerir um medicamento placebo. 

Cada laboratório deve encomendar uma série de testes, realizados por laboratórios independentes entre si, constituindo três grupos: um grupo toma a medicação placebo, outro grupo toma o medicamento a testar e outro grupo fica em espera. Tanto os pacientes como os médicos não têm informação de quem está a tomar o medicamento a testar e o medicamento placebo. A prova é considerada positiva se o medicamento a testar mostrar ser mais eficaz, sem sombra de dúvida, do que a medicação placebo. Seguindo esses critérios e os da Infarmed (entidade portuguesa que é responsável pela venda pública de medicação), a medicação é então comercializada. 

Desde o inicio do ano 2000, vários investigadores têm lançados publicações que vêem a demonstrar que, para determinadas perturbações mentais, o efeito placebo tem-se mostrado mais preponderante do que a acção química da medicação. Utilizando o exemplo da depressão, a investigação sugere que os anti-depressivos não são mais eficazes do que o efeito placebo, para depressões leves a moderadas. Estes dados têm causado uma enorme revolução no campo da saúde mental, lançando especialistas contra especialistas e aumentado as reservas dos laboratórios, da indústria farmacêutica. 

A verdade é esta: medicação é importante e não é. Tudo é relativo a uma extensa avaliação. Sabemos que a componente genética e biológica, enquanto seja importante, não é a única. Logo, intervenção psiquiátrica e psicoterapêutica é essencial. A investigação revela que, para o caso particular da depressão, para níveis leves, Psicoterapia tem-se mostrado tão ou mais eficaz que medicação e que, para níveis moderados a graves, a intervenção adequada será Psicoterapia mais medicação. Sabemos também que as perturbações de ansiedade são aquelas que melhor respondem à intervenção psicoterapeutica, nomeadamente a intervenções Cognitivo-Comportamentais. Finalmente, perturbações da personalidade, como Perturbação Borderline, Esquizofrenia, Perturbação Bipolar, devem ser devidamente medicadas e acompanhadas, em Psicoterapia. 

Por último, uma referência à prescrição. Psicólogos são técnicos superiores de saúde mental e não médicos, por isso não podem prescrever tratamentos farmacológicos. Por outro lado, a especialidade mais indicada para a prescrição de psicofármacos deverá ser a Psiquiatria, apesar de muitas especialidades médicas passarem esse tipo de medicação, sem formação suficiente em Saúde Mental. Excepção seja feita a Neurologia, nos casos de demências, como a Doença de Alzheimer ou Doença de Parkinson. A decisão da intervenção farmacológica deverá ser sempre tomada após uma avaliação adequada, realizada por Psicologia e Psiquiatria.


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