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Liga a televisão, durante a tarde. Encontra duas pessoas sentadas, uma numa cadeira, outra numa poltrona. De repente, uma das pessoas pede a outra que foque a sua atenção em algo, comece a relaxar e de repente... Durma!! Magia, bruxedo ou controlo mental? Nada disso... É apenas Hipnose.

A cada dia que passa, Hipnose sobe em popularidade e adesão. Actualmente, dois canais televisivos transmitem programas em que Hipnose é uma parte importante. As redes sociais estão cheias de ofertas de cursos de Hipnose, com a promessa de sucesso garantido e que vocês vão se tornar no maior "hipnoterapeuta" e "hipnotizador". Mentalistas, profissionais do ilusionismo que realizam ilusões recorrendo a técnicas e efeitos psicológicos, tendem a maravilhar a sua audiência com rotinas de Hipnose. Apesar de tudo, Hipnose continua a ser rodeada de mistério e controvérsia, sendo associada a mecanismos de controle mental e o forçar da autoridade. Nada poderia ser mais longe da realidade. Como profissional que estuda, forma e emprega Hipnose em prática clínica, decidi realizar dois textos sobre o tema. Enquanto que este será mais introdutório e prático, o segundo texto representa uma possível visão do futuro da utilização da Hipnose.

A primeira pergunta lógica a fazer será: O que é Hipnose? Antes de mais, é importante referir que existem várias teorias de Hipnose, cada uma apresentando a sua definição. A Associação Psicológica Americana (APA) possui uma divisão dedicada ao tema (Divisão 30 - Society of Psychological Hypnosis), onde estão disponíveis vários recursos, incluindo uma definição do termo. Para simplificar, Hipnose é um estado de atenção focada onde, por via de sugestões, realiza-se uma modificação emocional, cognitiva e comportamental. O foco pode ser num ideia, pensamento, numa sensação, num objecto, etc. Ao alcançar esse estado, a pessoa fica mais permeável a aprendizagens mais profundas e rápidas, fazendo com que a mudança ocorra mais rapidamente. Algumas técnicas semelhantes, mas não idênticas, são meditação, alguns tipos de Yoga e Mindfulness (sendo um estilo de meditação diferente do tradicional).

Hipnose é "uma jovem". O termo surge, pela primeira vez, no ano de 1843 pela mão médico escocês James Braid. O termo conduz a um engano, Hipnose é constituída por Hypnos, o Deus Grego do Sono, o que leva a pensar que é um estado de sono artificial. Contudo, a pessoa não só permanece bastante acordada, como até consume mais processos psicofisiológicos e neurológicos do que naquele que é chamado "estado de vigília".

Apesar de ser utilizada como sucesso em operações cirúrgicas, substituindo anestesias químicas, a comunidade cientifica ofereceu uma enorme resistência a Hipnose, considerando-a como algo mais esotérico. Parecia que Hipnose teria uma nova hipótese, quando o médico e um dos fundadores da Psicanálise Sigmund Freud apelou ao seu uso, como uma das fundações iniciais da sua teoria psicanalitica. No entanto, com a rapidez que Freud apelou à sua utilização, descartou o seu uso, em função de outras técnicas. Apesar do seu arrependimento em tê-lo feito, no final da sua carreira, Freud facilitou no novo desaparecimento da Hipnose. 

Durante esse tempo, a prática de Hipnose foi mantida por artistas em componentes de espectáculo. Ainda hoje em dia podemos ver esses espectáculos ao longo de alguns países da Europa, Estados Unidos e Brasil. Em plena verdade, esses espectáculos têm o potencial para fazer pior do que melhor, apresentando a Hipnose como algo em que o artista controla o espectador, entra na sua mente, faz com que realize feitos impossíveis e que pareça que tem poderes especiais. Essa imagem passa pois o artista não explica como isto é feito e, especialmente, no que consiste Hipnose. E, mesmo que ofereça uma explicação, o público pode não acreditar, dado à natureza das rotinas que são utilizadas. O Youtube está cheio dessas demonstrações. 

Um novo fôlego para a Hipnose parecia estar no ar, nas Grandes Guerras Mundiais. Pessoas treinadas no uso de Hipnose utilizavam-na nas operações, devido à falta de fármacos e clorofórmio. Mas, o que parecia ser prometedor, não passou disso... uma promessa. Mais uma vez, Hipnose continuava renegada para os palcos. 

Nem tudo estava perdido. Psiquiatras e Psicólogos tentaram revitalizar Hipnose, através de investigação. Escalas hipnóticas foram criadas, investigações no uso da Hipnose na Dor e Medicina Dentária foram realizadas com sucesso e as características psicológicas, sociais e cognitivas da Hipnose foram exploradas, a fundo. A grande luz, para esta era, veio através do psiquiatra americano Milton H. Erickson, um dos mais conhecidos inovadores de Hipnose e Terapia. O impacto que Erickson deixou e continua a deixar, por meio da Fundação Milton H. Erickson, fez com que Hipnose viesse para ficar. E, assim, parecia que o mundo ficou rendido. Mas...

Nem tudo são rosas, muito pelo contrário. O nome "Hipnoterapia" tem sido forçado, quando não existe! Hipnose é ume técnica terapêutica e não uma terapia, em si. Para que possa ser aplicada com sucesso, a pessoa deve ter formação e conhecimentos num modelo terapêutico, de modo a poder incluir Hipnose. A literatura tem apresentado propostas de Hipnose mais Psicanálise (Hipoanálise), Hipnose mais Terapias Existenciais (Hipnoterapia Existencial) e Hipnose mais Terapias Cognitivo-Comportamentais (Hipnoterapia Cognitiva). Mas Pedro, e o Coaching e PNL? Isso serve, certo? Para efeitos médicos e clínicos, não! Coaching e PNL não são sistemas de terapia, logo não possuem o rigor e a validação empírica necessária. Isso significa que uma pessoa com um quadro médico e/ou psicopatológico deverá ser visto por um profissional credenciado e, para além dessa credenciação, terá de ser devidamente certificado na utilização de Hipnose. 

Hipnose não possui uma regulação legal o que significa que qualquer pessoa a pode utilizar. Para ser mais fácil, vou utilizar o meu exemplo. Por lei, para exercer Psicologia, preciso de uma formação superior (5 anos), um estágio profissional de 1600 horas e ser membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Só assim posso exercer Psicologia. Como Hipnose não é uma terapia, não está abrangida. Se for um terapeuta alternativo, pode utilizar Hipnose. Nada o proíbe. Isso faz com pessoas sejam seduzidas a fazerem cursos de PNL + Hipnose, por exemplo, e montarem negócios profissionais como "Hipnoterapeutas".

O meu conselho para si é o seguinte: se precisa de ser acompanhado, procure um profissional devidamente credenciado para o fazer. Primeiro, ela deve saber lidar com o seu problema. E só depois, saber lidar com o seu problema, utilizando Hipnose. Hipnose está a tornar-se num negócio lucrativo e o foco está a ser este mesmo: lucro. 

 


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