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Um cliente entra num consultório, de um psicoterapeuta. A sessão começa a decorrer e o terapeuta começa a estabelecer a relação. Na sua cabeça, imagino que o terapeuta tenha pensado em mais do que uma estratégia a seguir. De repente, o cliente começa a fazer perguntas sobre Hipnose. Se serve para alguma coisa, se pode ser útil, o que é. O terapeuta começa a desviar a conversa, como se a peste se tratasse. Afinal de contas: deveria ser uma hipótese ou não!?

Atualmente, a oferta de cursos de Hipnose é grande, com tendência a aumentar cada vez mais. Embora se possa discutir a qualidade, isso é um assunto já cobrido e que poderá ser aprofundado, noutra oportunidade. O que é um facto é que, como a maior parte dos cursos encontra-se aberto ao público geral, a maior parte das pessoas que querem aprender e treinar Hipnose, não possuem uma formação em Saúde ou Saúde Mental. 

Embora esta tendência esteja a mudar, no sentido de mais profissionais de saúde procurarem informações e formação em Hipnose, a maior parte dos cursos incide numa tendência de "Hipnoterapia", como se estivéssemos a tratar de um treino em Psicoterapia. Isso constitui um perigo se pensarmos que um Psicoterapeuta treinado, num determinado modelo, pode cair na tentação de substituir essa "Hipnoterapia", por anos e anos de treino em qualquer que seja o seu modelo. 

Este pensamento é inconsequente se pensarmos que, ao longo dos anos, os mais preponderantes investigadores e praticantes de Hipnose são, ou foram, profissionais de Saúde Mental, cujo treino permitiu que integrassem Hipnose com sucesso, na sua prática clinica ou investigação. A excepção pode ser encontrada nos meandros da PNL, algo que não é um modelo de Psicoterapia! Assim sendo, abre-se a porta para que Psicólogos, Psiquiatras, Médicos e Psicoterapeutas possam utilizar Hipnose na sua prática. 

Se mais provas possam ser necessárias, o trabalho de Irving Kirsch e colegas, ao longo dos anos, valida a Hipnose como uma técnica que aumenta e complementa a eficácia das abordagens terapêuticas, nomeadamente Terapia Comportamental e Cognitiva, onde a maior parte dos estudos foram incididos. E claro, Hipnose foi a técnica original da Psicanálise, durante anos, até ser substituída por Freud. 

Milton Erickson, nome incontornável da Hipnose, era Médico Psiquiatra, responsável pela Psiquiatra de vários Hospitais, com influência da Psicanálise e conceitos Humanistas e Existenciais. A sua forma terapêutica tornou-se uma plataforma para Terapias Breves e Estratégicas, Terapia Familiar e Terapia Sistémica. Aliás, os alunos e confidentes de Erickson afirmam que a percentagem de Hipnose, no tratamento dos casos, era menor do que se pensa. O que era sim muito utilizado, por parte de Erickson, era uma linguagem suportada pela sugestão hipnótica. Daí que Hipnose Ericksoniana seja considerada como uma abordagem naturalista. 

No contexto pediátrico, Hipnose tem sido estudada, desde os anos 80 ou mais cedo. Por se tratarem de óptimos sujeitos hipnóticos, várias intervenções foram estruturadas, no campo da Dor, Depressão, Ansiedade e aumento de concentração e atenção. Sendo um método seguro, Hipnose tem provado ser uma estratégia com bastante adesão, por parte de crianças.

No contexto médico, Hipnose tem sido estudada e aplicada, extensivamente, no campo dentário e dor. A eficácia da Hipnose, no controlo de dor, tem sido tão elevado que, a Direção Geral de Saúde na sua norma 001/2014, Abordagem Terapêutica da Dor Neuropática no Adulto e Idoso, refere nas intervenções psicossociais:

c) As várias técnicas de biofeedback e relaxamento, que visam treinar o doente no controlo de funções involuntárias como a atividade autonómica e o tónus muscular, bem como a hipnose e a meditação podem aumentar os níveis endógenos de endorfinas e atuar sobre os mecanismos cerebrais de controlo da dor; 

Por esta altura, espero que tenha apresentado alguns argumentos a favor a utilização de Hipnose nos contextos de Saúde. E quanto a Psicoterapia?

Bom, temos vários. Os trabalhos de Kirsh, Lynn e colegas validam a eficácia de Hipnose, como técnica coadjuvante nas Terapias Comportamental e Cognitiva. António Capafons e os seus colegas, da Universidade de Valência, criaram e validaram testes e protocolos de intervenção, na questão dos Mitos e Crenças de Clientes e Terapeutas, assim como métodos de Hipnose Activo-Alerta. Michael Yapko, um dos principais nomes da nova geração de Ericksonianos, especializou-se no campo da Depressão, nomeadamente na intervenção da Terapia Comportamental e Cognitiva juntamente com Hipnose Ericksoniana. Assen Alladin estabeleceu e validou o que chama de Hipnoterapia Cognitiva, protocolos de Terapia Comportamental e Cognitiva mais Hipnose, para Perturbações Depressivas e Perturbações da Ansiedade. 

O leitor poderá, então, colocar a seguinte pergunta: se existem tantos estudos sob a eficácia da Hipnose, porque é que não existem mais Psicoterapeutas a usar a técnica? 

O primeiro motivo será o desconhecimento. A investigação demonstra que os terapeutas possuem mais mitos e mais crenças negativas, face à Hipnose, do que os clientes. Sem dúvida que se deve ao desconhecimento da história da Hipnose, mais a forma como Hipnose é tratada, na cultura actual da sociedade.

O segundo motivo está logo na formação inicial. Enquanto que a Medicina poderá não passar ao lado da Hipnose, a maior parte das Universidades que leccionam Psicologia, em Portugal, passam. Embora instituições como o ISPA ou a Universidade de Coimbra tenham realizado eventos e investigação em Hipnose, a técnica não é abordada, no contexto da Psicologia. A excepção é feita ao ISPA, que possuiu uma cadeira denominada Introdução à Hipnose Clínica e Experimental.

O terceiro motivo está ligado à qualidade e credibilidade das entidades externas que oferecem formação em Hipnose. Este assunto fica ao critério de julgamento de cada um. Pessoalmente, apenas posso aprovar a qualidade da Fundação Milton H. Erickson e dos Institutos que existem, em Portugal (Lisboa e Porto).

O quarto motivo está ligado ao facto de Hipnose não ser um modelo psicoterapêutico. Considerando que é uma técnica, passa ao lado à maioria das Sociedades de Psicoterapia, em Portugal. Excepção feita à Associação Portuguesa em Terapias Comportamental e Cognitiva em que, nalgumas temáticas, Hipnose foi referida como uma estratégia de intervenção. 

Finalmente, um quinto motivo está na regulação de Hipnose. Em termos legais, Portugal não possui nenhuma regulamentação legal sobre a utilização e formação, em Hipnose. Para além disso, Hipnose não se encontra dentro da regulação das Ordens Profissionais de Saúde. Embora possam reconhecer como uma estratégia útil, ou mesmo referir que Hipnose pode ter aspectos médicos, psiquiátricos e psicológicos, nenhuma Ordem regula a utilização ou formação, da mesma. 

Apesar dos contras, Hipnose é uma técnica extraordinariamente útil para ser utilizada por Psicoterapeutas, em contexto de Psicoterapia. Se a Psicoterapia utiliza recursos a técnicas experienciais, não existe razão para Hipnose não ser considerada, já que é uma técnica experiencial, por excelência.

Pedro Ribeiro

5/09/2017

 


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