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Certo dia, o corpo começa a pedir mudança. Os órgãos começam a avisar que algo não está bem. Ou, simplesmente, o olhar atento para o espelho, televisão ou revistas pedem mais curvas e formas. Mas será que é assim tão simples? Inscrever num ginásio e a vida muda automaticamente? Vamos saber o que diz a Psicologia sobre isto.

Pelos dados europeus, Portugal é um dos países que está mais elevado em comportamentos sedentários. Apesar de existirem períodos onde os ginásios possam estar com boa facturação, os portugueses não praticam muitos comportamentos de actividade física. Isso significa que podemos levantar três hipóteses 1) as pessoas treinam com objectivos sazonais, 2) as pessoas inscrevem-se, começam a treinar, mas não mantêm o comportamento ou 3) as pessoas inscrevem-se, mas acabam por não aderir. 

Dito isto, existe um grande grupo de pessoas que praticam qualquer modalidade desportiva. Isto exige que façamos uma clara distinção nos termos Actividade Física e Desporto. Citando a minha dissertação de mestrado, consideramos Actividade Física como sendo qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos, implicando um gasto de energia (WHO, 2010 em Ribeiro, 2011). Desporto é a organização de uma determinada actividade física, seja individual ou de grupo, onde o atleta deve estar devidamente federado. Desporto também implica outros níveis diferentes, como Desporto de manutenção, Desporto de competição e mesmo Desporto de alta competição.

Isto implica que uma pessoa que caminhe durante uma longa distância, por exemplo, está a realizar uma actividade física. Claro que, para que hajam benefícios para a saúde, qualquer actividade física deve ser realizada com uma determinada duração, intensidade e frequência. A organização americana CDC (Center for Disease Control and Prevention) faculta, na sua página online, uma secção sobre actividade física, onde oferece indicações sobre as melhores actividades físicas, a sua duração, intensidade e frequência, para cada escalão etário. 

A actividade física regular é uma excelente forma de prevenção de problemas físicos, como questões cardíacas, obesidade e até mesmo questões do foro da saúde mental. Estudos indicam que a prática regular de actividade física é um excelente complemento para a intervenção nas Perturbações Depressivas, por exemplo. Não só ajudam a regular níveis de dopamina e serotonina, como ajudam a criar um foco de atenção e concentração, permitindo que a pessoa se liberte de alguns pensamentos mais ruminantes. 

Mas tudo isto só beneficia as pessoas, porque é que os resultados mostram que as pessoas se afastam da actividade física? O psicólogo Rodney Dishman sugere que existem determinados factores que predizem a adesão à actividade física, como sendo as características intrínsecas do indivíduo, estilo de vida, hábitos e ambientais. Ou seja, as pessoas podem aderir à actividade física porque faz bem à saúde, sentem-se bem a praticar, têm condições económicas para o fazer ou razões estéticas. Pelo contrário, factores com a falta de tempo, falta de condições ou falta de dinheiro, são grandes determinantes para a não adesão à prática de actividade física. 

A esta altura percebemos que actividade física regular traz benefícios à saúde e que cada um pratica, ou não, consoante determinados factores. Ainda assim, como fazemos com que as pessoas adiram e continuem a fazer exercício físico? A investigação encontrou a resposta em duas variáveis psicológicas: auto-eficácia e motivação.

De uma forma simples, auto-eficácia é a percepção que cada um tem, em como consegue realizar um determinado comportamento, com sucesso. Por exemplo, se eu percepcionar que consigo vencer uma corrida, então eu vou participar nela. Por outro lado, se eu achar que não consigo, não vou executar o comportamento. Se acrescentarmos barreiras, tanto físicas como psicológicas, ficamos com algo deste género: auto-eficácia para ultrapassar barreiras é a percepção que eu tenho, em como consigo ultrapassar as barreiras colocadas com sucesso, para a realização de um determinado comportamento. 

Motivação é a força que nos faz realizar um determinado comportamento. Entre as várias teorias da motivação que existem, a mais estudada na adesão a comportamentos de exercício físico tem sido a Teoria de Auto-Determinismo, de Deci e Ryan. Esta teoria estipula, em traços gerais, que a motivação desenvolve-se por características intrínsecas e/ou extrínsecas. Ou seja, podemos realizar uma determinada actividade física porque sentimos prazer em fazê-la, ou porque realizamos com a ajuda de objectivos externos (imagem, companhia de amigos, etc.).

A investigação sugere que auto-eficácia e motivação são determinantes na adesão ao comportamento mas, num aspecto de manutenção, motivação intrínseca vai ser a variável mais importante. Ou seja, se a pessoa não sentir prazer no que faz, não vai manter. 

Parece claro que a sensibilização para a importância do exercício físico deve começar logo cedo, no desenvolvimento do indivíduo. Contudo, devemos ter dois aspectos em consideração:

1) A prática de exercício fisico deve ser focada na saúde física e mental e no gosto de praticar. Seguir o exemplo daquilo que se vê como a "imagem perfeita" e os requisitos da sociedade pode levar a circunstâncias menos boas, como Perturbações do Comportamento Alimentar e Comportamentos Aditivos. Neste último, não só apenas em substâncias, mas também na adição a um estilo de vida inflexível. 

2) O trabalho dos Personal Trainers deve ter em conta os objectivos da pessoas, as suas características pessoais e as suas motivações, em vez de ser centrado em objectivos de perdas rápidas, nomeadamente peso. 

3) Os Personal Trainers devem ajudar a pessoa a aceitar-se, enquanto ser em desenvolvimento e caminhar ao ritmo da pessoa.

4) Finalmente, os Personal Trainers devem trabalhar em equipa. Se não possuiu certificação ou conhecimento suficiente em nutrição, por exemplo, será correcto que trabalhem com um nutricionista. Se não sabem o suficiente sobre estratégias de motivação, devem procurar formações que os certifiquem e que façam desenvolver essa área de conhecimento. Se um cliente apresentar-se desequilibrado física ou mentalmente, o PT DEVE trabalhar com um médico ou Psicólogo!

Pedro Ribeiro

05/09/2017

 


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