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Certo dia, decide mudar a sua vida. Considera que Hipnose é a solução para que isso aconteça. À medida que tem em mente a sua condição financeira, escolhe qual a escola e formação mais apelativa. Desde os temas mais "holísticos" aos mais científicos, a escolha está feita. Durante a sua formação, ouve muita coisa sobre PNL, energias, Vidas Passadas e afins. Pouco se fala de Psicologia, até porque você será melhor que um Psicólogo. Mais eficaz e mais rápido. Vai prometer a cura que eles não conseguem dar. O curso acaba e, equipado com um exército de guiões para todas as ocasiões, decide montar o seu trabalho profissional. Chegam os seus clientes e começa a perceber que um guião não funciona. E outro não funciona. E mais um que não funciona. Afinal, mentiram-lhe na formação? Ou será que as pessoas são mais complexas do que os guiões dizem?

Historicamente, a Hipnose veio a desenvolver-se dentro do contexto cientifico, por médicos, psiquiatras até mesmo psicólogos e investigadores. Todavia, a época em que Hipnose se tornou Hipnose era uma época em que a Medicina não era sujeita a questionamento, era fechada a novas opções, quanto mais métodos que envolviam a ligação mente-corpo. Até mesmo quando Sigmund Freud apelou para o uso da Hipnose, rapidamente mudou de ideias, afirmando que outros métodos seriam mais eficazes para a comunicação inconsciente mais profunda. Tudo isto para afirmar que foi a própria comunidade cientifica que renegou Hipnose, a dada altura.

A sobrevivência da Hipnose ficou nas mãos dos artistas de palco, aqueles que utilizavam a técnica como parte dos seus espectáculos, criando rotinas em que a pessoa parecia estar sobre uma espécie de controlo, à medida que realizava feitos quase extraordinários, como se manter rijo como madeira, não conseguir andar, agir como animais e estar tão insensível à dor, que agulhas eram espetadas pela pele sem qualquer indicio de desconforto. Por mais visual que seja, estas rotinas em nada promoviam a Hipnose como uma técnica terapêutica séria. 

Em termos terapêuticos, a credibilidade da Hipnose subiu, exponencialmente, com os trabalhos e o génio de Milton H. Erickson. Esse trabalho continua a ser desenvolvido e dado a conhecer pelos seus alunos e pela Fundação Milton H. Erickson, criada e dirigida por Jeffrey K. Zeig. Parecia, assim, que a Hipnose finalmente poderia ver a luz do dia, na aceitação de médicos, psiquiatras, psicólogos e psicoterapeutas. Até surgir a PNL.

De uma forma resumida (para mais informações, podem ler um artigo completo sobre a PNL, aqui no site), Programação Neuro-Linguística é um conjunto de técnicas e procedimentos, baseados nos trabalhos de Fritz Perls e Virgina Satir. A Hipnose entra nesta panorama no momento em que Bandler e Grinder decidiram incorporar a linguagem de Milton Erickson, no que a PNL chama do Modelo Milton. Ora, devido à popularização da sua suposta eficácia e por ter padrões hipnóticos, todos aqueles que tenham treino em PNL consideram-se como grandes terapeutas. 

O panorama atual da propaganda de cursos de Hipnose também não é favorável. Com uma forte componente na parte holística, a maior parte dos cursos diz-se profissional, sendo que apenas entidades internacionais como a ASCH (American Society of Clinical Hypnosis) possuem programas de certificação profissional em Hipnose. Outros cursos, por seu lado, afirmam o ensino da Hipnose Terapêutica, quando a maior parte deles nem é dado por terapeutas certificados em Saúde Mental. O problema constitui-se pela falta de legislação, o que permite que qualquer um, seja advogado, gestor ou outro, sob o aval da categoria de terapias alternativas ou holísticas, poder oferecer serviços de consultas de Hipnose. 

O que torna prejudicial essa prática é que Hipnose é uma técnica e não um modelo conceptual do funcionamento do ser humano. Esses encontram-se à disposição da Psicologia e Psiquiatria e na formação pós-graduada em Psicoterapia. Ou seja, hipnose é uma técnica que aumenta o nível de comunicação e o nível da relação terapêutica, ocorrendo modificações no estado do cliente. Contudo, as sugestões que são utilizadas baseiam-se noutros modelos de intervenção, quase todos psicológicos. 

É por essa razão que a investigação cientifica em Hipnose considera-a como uma boa técnica adjuvante a modelos psicoterapêuticos, como a Terapia Cognitivo-Comportamental. Mesmo a intervenção de Erickson era tão mais estratégica, breve e terapêutica, quanto hipnótica. 

Apesar da maioria dos cursos sob-valorizar Hipnose, em relação à prática formal de Psicoterapia, o que é um facto é que Psicoterapia funciona e, como tal, deve ser aproveitada juntamente com Hipnose. Se Psicologia, Psiquiatria e Psicoterapia resultam, devem ser utilizadas! 

Treino e pesquisa de terapias formais é absolutamente essencial para qualquer profissional que resolva utilizar Hipnose, como técnica. Afinal de contas, estas são as vertentes cientificas que se dedicam a estudar e compreender o ser humano. 

 

 

 


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