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O leitor que segue estes textos está habituado a um certo formato, onde faço uma pequena introdução do tema, através de um cenário hipotético. Hoje será muito diferente. Este texto será a minha opinião justa sobre o uso da Hipnose, para fins de espectáculo. Vamos lá a isso!

Para que já leu algo ou conhece Hipnose, o que vou dizer não é desconhecido. Mas, para os novos leitores, permitam-me fazer uma viagem no tempo, pela história da Hipnose, antes mesmo de ela ter existido. 

Antes da existência de Hipnose, o Mesmerismo já era uma prática conhecida e popularizada por Mesmer e os seus discípulos. Quando a comissão presidida por Benjamin Franklin concluiu que o Mesmerismo não era a técnica que se afirmava ser, Mesmer caiu no ridículo e deixou a França, para viver em exílio, onde acabaria os seus dias sozinho. Apesar de haver mais indivíduos a continuarem a prática do Mesmerismo, o Marquês de Puységur estando entre os mais famosos, o Mesmerismo passou a ser algo utilizado em festivais, circos e formas de entretenimento. Foi numa dessas ocasiões que James Braid teria a oportunidade de observar o fenómeno e chegar ao que conhecemos por ser Hipnose. 

Passados anos, Hipnose caminhava para algum reconhecimento médico, por mais complexo que fosse. A sua oportunidade de ouro estava nas mãos de Sigmund Freud. Todos sabemos o que se passou a seguir. Freud considerava que Hipnose não seria a técnica mais adequada para a sua nova teoria e, não só a abandonou, como a desacreditou cientificamente. Apesar do legado existir na forma de uma obra chamada "Artigos sobre Hipnotismo e Sugestão - A Psicologia da Histeria", Freud e o mundo terapêutico virou costas à Hipnose. Ajudando a isto estavam os avanços farmacológicos, nomeadamente o clorofórmio, eliminando também a utilização de Hipnose para controlo de dor, anestesia e analgesia. O que se passou então com Hipnose? Passou a ser utilizada por artistas de palco e de rua, nos seus espectáculos. 

Apesar de algum retorno ao campo científico e saúde, Hipnose ainda tem uma longa tradição de ser utilizada para efeitos de entretenimento. Países como os Estados Unidos, Inglaterra, Brasil, por exemplo, têm uma cultura de "fabrico" e consumo de espectáculos de Hipnose, seja na rua como no palco. É raro entrar num casino americano sem que se encontre algum hipnotista a realizar uma rotina. E muitos deles exercem ou exerceram profissões de saúde mental.

Para que o leitor entenda, permita-me explicar no que consiste Hipnose de Rua, por exemplo. Alguém com treino em Hipnose (podendo ser um terapeuta ou não), vai para a rua, com t-shirts ou placard a anunciar Hipnose e se a pessoa que experimentar. Em muitos casos, a pessoa nem tem de ter uma licença para actuar na rua. Consoante a escolha do local e rua, pode ser que ele consiga gerar um factor de curiosidade e começa a reunir-se um grupo de pessoas, à sua volta. Para efeitos de simplicidade, vamos chamar a esta personagem de O Hipnotista.

Assim que se junta um número razoável de pessoas, O Hipnotista prontifica-se a apresentar-se, a expor o que vai fazer e fazer um breve discurso sobre Hipnose e esclarecer alguma questão que possa sabotar a sua rotina. De seguida, pede a participação do grupo. Alguns recusam, outros ficam indecisos e outros aceitam, nem que seja pela curiosidade. De seguida, O Hipnotista orienta o grupo que aceita participar em algo que chamada de tarefas ou exercícios, onde seguir as sugestões e usar a imaginação são importantes mas, no fundo, não são mais do que testes de sugestionabilidade clássicos. Porque é que ele faz isso? Muito simples, O Hipnotista tem de garantir que vai trabalhar com os melhores sujeitos possíveis, aqueles que são altamente sugestionáveis, para que a sua rotina seja um sucesso. Estatisticamente, quando maior for o grupo de pessoas, maior será a probabilidade de encontrar pessoas altamente sugestionáveis. Assim que as encontra, O Hipnotista convida-as a continuar a participar e dispensa, cordialmente, as restantes. 

Com o seu participante escolhido, O Hipnotista parte para estratégias que envolvem tanto mecanismos de resposta fisiológica, quanto sugestão, conhecidas como Pseudo-Hipnose (o indivíduo não está completamente hipnotizado, mas os fenómenos fisiológicos fazem-no pensar que se trata de Hipnose). Convencendo a pessoa que algo se passou e que a pessoa quer continuar, O Hipnotista parte então para a indução hipnótica, geralmente uma interrupção de um aperto de mão ou um choque, puxando o braço ou a cabeça da pessoa. Estando a pessoa em Hipnose, O Hipnotista chegue com a sua rotina, dando sugestões directas e autoritárias para que o braço da pessoa fique rijo como uma barra de ferro e que não o consegue dobrar, por mais que tente. Sugere que partes do seu corpo fiquem coladas e que não as consegue descolar, até que diga o contrário. Sugere que o seu nome ou outra coisa desapareça da sua mente, que veja coisas que não existem ou que não veja algo que está à sua frente. E, aspecto muito importante, O Hipnotista está a actuar para o seu público, logo as pessoas têm de se rir, ficarem surpresas, em choque ou algo mais. 

Isto é o que geralmente acontece numa actuação de rua e a diferença para um palco será no possível número superior de pessoas, na assistência, algumas rotinas serem mais elaboradas e a utilização de adereços específicos, construídos para o evento. Uma rotina clássica é colocar a pessoa num estado hipnótico, fazer com que todo o seu corpo fique rijo e não se vergue, para que depois suportado por duas cadeiras. 

Não só a rua e o palco se tornaram veiculo para o entretenimento, como também a televisão. Ao longo dos anos, existiram vários programas que apresentam Hipnose como um espectáculo. O próprio Paul Mckenna, conhecido pelos seus livros de auto-ajuda, teve um inicio semelhante no programa "The Hypnotic World of Paul Mckenna". Recentemente, a Aahea (Associação para o Avanço da Hipnose Experimental e Aplicada) fez vários apelos contra o programa "1 2 3 Hipnotizame", um programa onde personalidades conhecidas, da realidade espanhola, eram hipnotizadas para realizar várias rotinas, algumas algo discutíveis. 

Mas a grande noticia está no programa mais atual "You're Back in The Room". Este programa, que já teve várias edições em alguns países, é conhecido por ter o conhecido mentalista Keith Barry, onde a sua função é hipnotizar os concorrentes, de modo a que estes não consigam executar os objectivos de cada jogo. Isso pode incluir atirarem-se para o chão, agarrarem-se aos pés do apresentar, mandarem com bolos à cara uns dos outros, etc. E como a televisão portuguesa, em muitos aspectos, não é suficientemente original e criativa na produção de programas, vai fazer uma adaptação desse programa. De nome "Divertida Mente", este programa vai ser emitido pela SIC, a partir de Janeiro de 2018, com inscrições já abertas. 

Onde quero chegar com isto tudo? A esta conclusão.

Hipnose de Rua e de Palco é criada, especificamente para dar espectáculo, com rotinas que impressionam, fazendo com que o hipnotizador, hipnotista, artista, como queiram chamar, parece estar numa plataforma superior, onde exerce um poder místico sobre as pessoas. Para além de não dar a melhor imagem de Hipnose como ferramenta terapêutica, ainda faz alguns mitos perdurarem. Finalmente, temos de pensar na realidade e o contexto de Portugal, onde Hipnose é algo recente, só agora mais popularizada e sem esta "cultura" em Hipnose de Rua e Palco. Poderemos estar a carregar uma arma para ser disparada, no futuro terapêutico da Hipnose. 

Termino este texto com um relato pessoal. 

Faz um ano por esta altura, um ex-colega organizou um espectáculo de Hipnose de Palco. Por uma questão de solidariedade, decidi arranjar bilhetes, onde convidei a minha melhor amiga a vir comigo. Só para que haja um contexto, ela farta-se de me ouvir falar sobre Hipnose, mas nunca me viu a hipnotizar pessoas, já que eu não faço demonstrações sem ser para fins formativos ou terapêuticos. Fomos então ao local e ficámos sentados na terceira ou quarta fila. 

O espectáculo começou muito ao jeito da descrição que realizei anteriormente. Ele disse umas palavras, solicitou que as pessoas realizassem alguns testes e seleccionou alguns candidatos a irem para o palco. Antes de começar a rotina do espectáculo, ele induziu as pessoas em Hipnose, algumas vezes. Numa delas, ele dirigiu-se a cada uma e induziu-as utilizando induções rápidas e de choque, algumas bastante visuais. Numas dessas induções, recordo-me que uma das pessoas teve um comportamento em que a parte superior do seu corpo caiu, de uma forma tão brusca, que ela quase caiu da cadeira. Enquanto eu sabia o que se tinha passado e como tinha acontecido, assim como alguns pessoas da assistência, eu reparei na expressão de medo com que a minha amiga ficou. 

Embora em tivesse feito todos os esforços para lhe explicar exactamente como aquilo aconteceu e como era realizado, ela ficou tão assustada que desenvolveu alguma resistência a Hipnose. 

A maioria das pessoas não conhecem nada sobre Hipnose e este poderá ser o primeiro contacto que têm com a técnica. Estaremos nós a minar o campo terapêutico com rotinas de entretenimento? A minha opinião pessoal é que poderemos estar.  


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