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Imagine que se encontra numa situação, seja ela social ou profissional. Alguém chega-se ao pé de si e, claramente, você não queria estar a iniciar uma conversa. Mas você não é capaz de recusar. Cumprimentam-se e a pessoa faz uma pergunta que implica uma resposta de sim ou não. A sua vontade natural é dizer que não mas pelo impulso social, você vai dizer que sim. A pessoa não parece muito crente na sua resposta. De seguida, vai-se embora. O que se passou aqui? Simples... A sua linguagem corporal acabou de o/a trair!

Embora muitas pessoas possam não valorizar, o ser humano está em constante processo de comunicação. Isto acontece logo desde o nascimento, quando o bebé procura a mãe, de modo a iniciar-se o processo de vinculação. Todavia, essa comunicação não é verbal, mas sim corporal. Se não repare: em média, o ser humano começa a utilizar a linguagem não-verbal por volta dos 12/13 meses. Até esse momento, a sua sobrevivência depende de passar mensagens aos seus pais, por via de sons, gestos e expressões que implicam emoções. 

De uma forma simples, o principio da comunicação é passar uma mensagem entre aquele que inicia o processo, emissor, para o destinatário da comunicação, o receptor. Enquanto o processo parece bastante linear, o facto é que a comunicação pode apresentar muitas falhas. Não será raro a pessoa constatar que o receptor não percebeu a intenção e/ou o conteúdo da mensagem. Existem muitas variáveis para que isso possa acontecer, algumas internas e outras externas. As internas são aquelas que a Psicologia Cognitiva mais se debruça, como as cognições, as crenças, os valores, os esquemas e as distorções que fazem com que a informação seja assimilada de forma enviesada. Por outro lado, factores externos como o ruído excessivo, a proximidade dos interlocutores, possíveis barreiras físicas ou constrangimentos temporais também não facilitam a comunicação. Mas existe ainda outro factor que só recentemente tem sido mais valorizado: linguagem corporal ou não-verbal.

Quando você conhecem alguém pela primeira vez, por mais incrível que possa parecer, o seu cérebro faz uma avaliação de 4 segundos aos quais decide se o outro é alguém que pode considerar amigo ou ameaça. Esta avaliação é o que chamamos de primeira impressão e tem como base um mecanismo evolucionário descrito por Walter Cannon "The Fight or Flight Response". Sob a percepção de ameaça, existem dois tipos de resposta principais, atacamos (o sangue é bombeado para os membros superiores) ou fugimos (o sangue é bombeado para os membros inferiores). Na maioria dos animais, incluindo o ser humano, existe ainda uma terceira resposta onde "congelamos", de modo a passarmos despercebidos. 

Geralmente, esta primeira impressão é algo permanente, a não ser que o tempo e as acções do indivíduo provem o contrário. É por esse motivo que Psicólogos sugerem que a pessoa cause uma boa primeira impressão, especialmente em contexto profissional. Para isso, existem treinos de competências específicos sobre como se vestir, como se apresentar, a postura indicada, as expressões verbais e as expressões não verbais a utilizar. 

Para quem for apreciador de séries, pode ser que se lembre de uma chamada "Lie to Me". Focada na análise da linguagem corporal e comportamento não-verbal, a personagem principal de Cal Lightman foi baseada no psicólogo americano Paul Ekman, um dos maiores investigadores sobre o tema. O trabalho de Ekman inspirou mais pessoas a dedicarem-se à análise não verbal, assim como a criação de um sistema de codificação de microexpressões. Para Ekman, existem cinco emoções universais: Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. Estas emoções são expressas por expressões universais. Este trabalho foi explorado em tribos indígenas que não possuíam contacto com civilizações mais sofisticadas.

Enquanto que a linguagem verbal é uma forma de comunicação mais pensada, antes de ser realizada, a linguagem não verbal é algo menos analisado pelo cérebro. É um processo mais instintivo, em que a pessoa não se encontra muito ciente dos seus movimentos, muitas das vezes. Por exemplo, a maior parte das pessoas assume que os olhos são as partes mais honestas do corpo humano. Sem dúvida pela extensa produção de literatura romântica! Se foi uma das pessoas que pensou nisso, lamento dizer mas está enganado! A resposta a esta questão são os pés. Por estarem mais afastados do cérebro, os comportamentos dos pés são aqueles que mais temos dificuldades em controlar. Por isso, são os mais honestos. 

Apesar do tema da detecção de mentira estar muito em voga, o estudo da linguagem não verbal não se prende apenas com essa área. A compreensão de como o corpo comunica é nos útil para todos os níveis de interacção da pessoa. Para que saiba, em todo o espectro da comunicação, a linguagem verbal contempla apenas 10%. Isso significa que comunicamos mais com gestos do que com palavras. 

Do ponto de vista profissional, a análise do comportamento não verbal vai fazer com que a pessoa tenha mais sucesso nas suas negociações, podendo influenciar mais facilmente a decisão. No campo pessoal, percebermos o comportamento não verbal do outro faz com que aumentamos a nossa sintonia e rapport com o outro. 

Finalmente, deixo um último ponto para os profissionais de saúde e terapeutas. Para muitos dos nossos clientes, é difícil expressar verbalmente emoções e sentimentos, especialmente no inicio da relação terapêutica. Perceber como o corpo expressa essas emoções, não verbalmente, é uma grande vantagem. Podemos perceber quando a pessoa fica mais ansiosa, mais ativada ou emocionalmente mais incomodada. Embora o objectivo não ser apanhar alguém na mentira, percebermos algum incongruência permite-nos explorar melhor a temática, para que possamos clarificar a situação. 

No que respeita à prática da Hipnose, também a observação do comportamento não verbal é muito importante. Em primeiro lugar, a maior parte dos sinais que nos mostram que a pessoa está a entrar em Hipnose são físicos, como a mudança da respiração, a tonalidade muscular mais relaxada, etc. Também é importante perceber o desconforto ou conforto da pessoa, durante o processo. Em último lugar, muitas pessoas escolhem não comunicar verbalmente com o terapeuta, durante o estado hipnótico. Estando no seu direito, o feedback é extremamente importante, para que o terapeuta saiba qual está a ser a experiência subjectiva do cliente. Nesse sentido, são dadas sugestões ideomotoras, em que determinados movimentos corporais nos dão respostas Sim e Não. 

Em suma, reconhecer os sinais não verbais é extremamente importante para todos os níveis da vida. Se for profissional de saúde mental ou outro terapeuta, esta afirmação ainda é mais importante para si! 

 

 

 


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