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Já lhe aconteceu ver uma determinada imagem e recuar até à sua infância? Ouvir aquela música especial que faz com que regressa ao momento do primeiro beijo? Ou talvez a sensação da areia nos seus pés, levando a momentos de brincadeira na praia favorita... Se assim for, passou por uma experiência regressiva. Como é que isto acontece? E que utilidade é que pode ter para as intervenções terapêuticas?

Ainda dentro da  barriga das mães, o feto começa a desenvolver-se em criança. Com ele, vem o desenvolvimento de todos os principais orgãos do ser humano, incluindo o cérebro. É nesse momento que as primeiras ligação neuronais são estabelecidas e o cérebro começa a formar-se e desenvolver-se.

Claro que este desenvolvimento ainda não é definitivo. Desde que a criança nasce, até entrar na idade adulta, o cérebro continua a desenvolver-se, encontrando sempre caminhos para o estabelecimento de ligações entre neurónios, a que se dá o nome de sinapse.

Entre outras funções, o cérebro é responsável pelas estruturas onde são localizadas as nossas memórias. Imagens, sons, situações e sensações que vamos começando a assimilar, ao longo da nossa vida. Por exemplo, é graças à memória que temos o nosso processo de aprendizagem. Aprender algo significa assimilar a informação, acomodá-la no nosso sistema, reproduzi-la ou usá-la, mediante o pretendido. 

Por outro lado, as nossas memórias representam a construção da nossa vida e dão sentido à nossa existência. Graças aos nossos sentidos e cérebro, não só temos a capacidade de armazenar memórias mas, também, a capacidade de as evocar, podendo-as reproduzir em formato de histórias. 

Quanto mais a pessoa tiver a capacidade de se absorver nessas memórias e sensações, mais a sua capacidade de evocá-las, como se estivesse a vivenciá-las novamente. Este processo pode ser bastante frequente nas Perturbações de Stress Pós-Traumático, onde a pessoa evoca memórias associadas a traumas. Ao evocá-las, pode vivenciá-las como se estive lá, reagindo como tal. 

Tudo isto é muito mais fácil com as memórias que temos de situações pelas quais já passámos. Daí que chamemos a isso passado. Algo que define passado é a noção que ocorreu num tempo que já passou, numa outra altura. 

Embora utilizemos a noção de tempo de um modo arbitrário, esta noção não é totalmente linear. Por exemplo, a forma de calendarizar os anos varia do ocidente para o oriente, onde o ano chinês nunca corresponde à maioria dos anos ocidentais. Também temos um período de contagem temporal antes de Cristo e depois de Cristo, na calendarização católica. Os Maias, por exemplo, possuem um sistema de calendário muito mais antigo e sofisticado. 

Embora tenhamos aprendido a contar o tempo, muitas das vezes temos a percepção que passou mais ou menos tempo e falhamos por completo. Todas as pessoas já passaram pela experiência de ler um livro muito apelativo, que fez com que a sua atenção fosse completamente absorvida na história e nas emoções que ela desperta. Quando essa absorção termina, fica-se surpreso por não se dar conta da passagem do tempo, onde horas pareciam minutos. Isso é o que chama de Distorção Temporal.

Este fenómeno é algo hipnótico, por natureza. Contudo, terapeutas com formação em Hipnose têm técnicas especificas para elicitar estes fenómenos em consultório, com um propósito terapêutico. Para uma pessoa que não tem tempo para relaxar, 10 minutos de um estado de Hipnose podem parecer horas. Mas a distorção temporal não é o único fenómeno que pode ser utilizado. 

Um dos fenómenos mais populares e controversos da Hipnose é a Regressão. Como o termo indica, regredir significa voltar para um tempo que já passou. Todos nós temos essa experiência ao recordarmo-nos da nossa infância ou outros momentos importantes. O que torna a regressão tão poderosa é a activação de imagens, sons e sensações, que fazem com que estejamos a reviver a situação como se estivéssemos lá novamente.

Embora a noção de regressão não seja exclusiva da Hipnose, é a Hipnose que a tem tornado mais popular. Por exemplo, uma das formas de trabalho da Psicanálise é analisar conteúdos ligados ao desenvolvimento infantil e da interação com os pais. A Psicanálise clássica considera que a razão do funcionamento disfuncional está nas relações precoces e, portanto, ligado a aspectos passados da pessoa. 

Aqueles que privilegiam a Hipnoanálise (utilização da Psicanálise com técnicas de Hipnose) regridem a pessoa até uma altura em que o paciente identifica, de forma consciente ou inconsciente, um acontecimento que o marcou, de forma traumática. Segundo esta perspectiva, a atribuição de novo significado da situação (não estamos a falar de modificação das memórias mas sim do impacto que eles causaram) faz com que a pessoa possa ter um funcionamento mais adequado, no momento presente. 

Do outro lado do espectro, temos a Progressão. Ao contrário da regressão, que lida com memórias da vida da pessoa, a progressão implica hipóteses de alternativas de um futuro que ainda não aconteceu. Pode perguntar, se o futuro ainda não aconteceu, de que serve criar essa construção? De um modo simples, a progressão permite a generalização de comportamentos adequados, quer em relação à razão da queixa ou simplesmente a todos os aspectos da vida do paciente. O simples facto de ele se poder imaginar numa situação em que consegue ter os recursos que necessita, pode abrir todo um leque de hipóteses de aumento da motivação e auto-eficácia para que, de facto, consiga atingir os resultados pretendidos. 

Termino deixando um conselho. Este tipo de técnicas são extremamente poderosas só devem ser aplicados por terapeutas com formação e experiência. 

Regredir alguém sem ter o domínio da técnica pode ativar traumas ou gerar novos. Assim como progredir alguém sem ter o domínio da técnica pode criar uma ilusão de certeza de algo que poderá não vir a acontecer, mas que a pessoa pode experienciar como real! 

 


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