Artigos

O que acontece quando o terapeuta não é suficiente? O que acontece quando o terapeuta adoece? O que acontece quando o terapeuta passa a ser o cliente? Vamos pensar sobre a necessidade do terapeuta ser ajudado.

Há alguns dias atrás, refleti sobre o estigma que ainda exista sobre a Saúde Mental. Pensei na dificuldade que ainda é uma pessoa pedir ajuda profissional, por causa das contrariedades da vida. Como isso pode ser levado ao medo da colocação de um rótulo, em que a pessoa assume a identidade da perturbação: deixa de ser o João, a Ana ou a Maria e passa a ser o/a depressivo/a. E claro, a noção clássica de que os Psiquiatras, Psicólogos e Psicoterapeutas são para os malucos! E a maioria não quer ser chamada de maluca!

O que é mais raro eu encontrar é o reverso da medalha ser falado. O estigma do profissional de saúde precisar de ajuda!

Quando um paciente ou cliente chega ao contexto terapêutico, encontra um ou uma terapeuta, um/a profissional treinada para ajudar o outro, na arte de Psicoterapia. Para muitos, é alguém que projecta uma postura elevada, quase inquebrável, de segurança e confiança. Sem dúvida que muitas das palavras são como se fossem ouro e gravadas religiosamente na mente do cliente ou paciente. Sobretudo, é alguém com que a pessoa pode "descarregar" todas as suas emoções, especialmente aquelas que a pessoa tem dificuldade em gerir. 

O terapeuta é um ser humano, com a sua vida, realidade e emoções! Tal como a pessoa que procura ajuda, o terapeuta sente. O que é feito nas especializações em Psicoterapia é treinar futuros terapeutas para desenvolverem estratégias que permitam que a sua realidade e emoções não interfiram, de forma negativa, no processo terapêutico. No final, não são as necessidades do terapeuta que devem ser atendidas, mas sim de quem o procura.

A forma como o terapeuta escolhe colocar-se "em xeque", por assim dizer, é aquela que melhor se adequa a si. Contudo, é bastante consumidora. E claro, quanto mais o terapeuta realizar o seu trabalho, maior será a necessidade de se proteger e cuidar. Logo, ainda mais energia irá gastar.

A vida é um continuo, ela é fluida e em constante movimentação. Muitas são as preocupações que ocupam a vida do terapeuta e, para além das profissionais, muitas preocupações pessoais, familiares ou sociais não são muito diferentes de algumas que nos chegam à terapia. O terapeuta não deixa de ser uma pessoa!

Mas então, porque é que cuidar da saúde do terapeuta, podendo  passar por um pedido de ajuda profissional, é tão temido por aqueles que melhor sabem?!?!?

Deveria ser diferente, não é? Mas não! O terapeuta tem tantas ou mais resistências em pedir ajuda profissional.

O terapeuta assume que as estratégias que aplica com o outro e aquilo que diz irá conseguir realizar, para as suas próprias questões. Mas claro, há o velho ditado popular "Faz aquilo que eu digo, não faças aquilo que eu faço!". A realidade é que os terapeutas raramente aplicam as estratégias que dão aos que o procuram. Por acharem que não vai resultar com eles, ou porque consideram que a sua posição é muito diferente.

O terapeuta, tal como outra pessoa, tem muitas dificuldades em ser objectivo consigo próprio. Afinal de contas, ele é apenas humano e não um robot.

E claro, não poderia deixar de surgir a imagem do que seria passar para os colegas que o terapeuta precisa de terapia! Sim, ainda é uma realidade. Mesmo que a percentagem seja de 0.00000000000000000001%, ela ainda parece existir.

Hoje em dia, a maior parte das sociedades e associações de Psicoterapia exigem que a sua formação contemple um número de horas de Desenvolvimento Pessoal. Este tempo não significa Psicoterapia, como entendemos, mas sim um período em que o Psicoterapeuta em formação pode discutir aspectos pessoais que tenham o poder para interferir no seu trabalho profissional, com um Psicoterapeuta mais experiente. Muitas das vezes, pode ser o suficiente, noutras abre a possibilidade para se perceber a importância da realização de um processo de terapia formal.

Se o terapeuta cuidar de si, dificilmente terá condições para cuidar do Outro!

É importante para todos os profissionais de saúde mental perceberem as suas limitações, os seus pontos fortes, o que pode constituir como uma ameaça para o seu trabalho e quais as oportunidades que pode aproveitar. E pensarmos no seguinte:

Isto existe, é uma realidade que tem de ser abordada! Devemos falar sobre isto e entre colegas, para criarmos redes de suporte. Há que combater a ideia de que pedir ajuda é um sinal de fraqueza. Muito pelo contrário, é um sinal de grande força! Não pedir ajuda é apenas e somente um sinal de grande estupidez! 

   

 


ASSINE NOSSO EBOOK!
É GRATUITO

Os seus dados serão utilizados unicamente para receber novidades nossas. Não serão divulgados.