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Como sabe que vai ser hipnotizado? Que sinais é que espera que aconteça? Uma sensação de flutuação no ar? Uma alteração de estado de consciência? Ou talvez nada disso! O que sabe é que Hipnose ocorre quando fecha os olhos, certo? Mas será isso uma condição obrigatória? Ou será que pode ser hipnotizado de olhos abertos e sem necessidade de relaxar?

Ao longo da jovem existência de Hipnose, duas características têm vindo a acompanhar a visão das pessoas sobre o processo. A primeira característica é a mais popular e mais visível: os olhos fechados!

Na maior parte das técnicas e induções de Hipnose, o objectivo do terapeuta é conseguir que a pessoa feche os seus olhos. Sob o ponto de vista do foco de atenção, fechar os olhos permite que um dos principais sentidos da pessoa não interfira com o processo (visão), ao mesmo tempo que a pessoa consegue concentrar a sua atenção, de uma forma mais harmoniosa para si próprio. Contudo, pessoas mais ansiosas ou com uma grande percepção de controlo podem apresentar dificuldade em fecharem os olhos, ou mesmo nem cumprirem a sugestão.

A sua característica passa por sugestões de relaxamento. A maior parte das perspectivas diferenciam Hipnose de relaxamento, afirmando que Hipnose não é relaxamento! Contudo, a prática tradicional de sugestões hipnóticas dá muito relevância a termos como "relaxar mais e mais..." ou "relaxe profundamente!". 

Neste sentido, é expectável que uma pessoa feche os seus olhos e que relaxe profundamente, de modo a ser hipnotizada.

A perspectiva Ericksoniana veio apresentar Hipnose como um conjunto de processos psicológicos naturais, formando uma relação onde o terapeuta começa a facilitar o processo de Hipnose, sem que os olhos se fechem. Não obstante, a maior parte dos terapeutas Ericksonianos solicitam que a pessoa possa fechar os seus olhos. 

Na literatura referente a Hipnose, podemos encontrar um tópico que sugere hipnotizar alguém, sem que este feche os seus olhos ou que seja sugerida qualquer forma de relaxamento. Este tópico tem a designação de "Waking Hypnosis", onde as sugestões são dadas à pessoa, no contexto da relação psicoterapêutica. Aqui, a palavra Hipnose apresenta-se como um embrulho, algo que dá um sentido hipnótico para as sugestões. 

Dou o seguinte exemplo. Eva Bányai, investigadora e psicoterapeuta, desenvolveu um método onde pedia aos seus pacientes que se colocassem numa bicicleta ergonómica e pedalassem. Isto era feito no seu gabinete e era dada a sugestão para que a pessoa focasse toda a sua atenção nos movimentos necessários para pedalar e senti-se o seu corpo a activar-se, cada vez mais. Passados uns minutos (em que este estado focado de atenção era conseguido), Bányai pedia à pessoa que parasse, que se sentasse numa cadeira e prosseguia com as sugestões hipnóticas.

Se acha que este exemplo é extraordinário, tenho um desafio para si. Da próxima vez que fizer uma actividade física (aqui fica a sugestão para a sua saúde física e mental!), foque-se totalmente no que está a fazer. Em todos os pequenos movimentos. Em todas as sensações do seu corpo. E talvez se aperceba que, progressivamente, o tempo começa a distorcer, a sua mente começa a focar-se e é como se o mundo exterior começasse a desaparecer, pela sua escolha. Desportistas de alta competição, com o treino adequado, conseguem entrar nesta "zona" e melhor o seu desempenho.

Para um Psicoterapeuta, é bastante complicado ter uma bicicleta no seu espaço! Felizmente, não é absolutamente necessário.

António Capafons, psicoterapeuta, investigador da Universidade de Valência e os seus colegas, desenvolveram o Modelo de Hipnose Activo-Alerta. Este modelo estruturado e devidamente validado é composto por uma série de procedimentos que visam promover o controlo e participação activa do sujeito, no processo terapêutico. Ao mesmo tempo, é o objectivo do modelo poder dar as ferramentas necessárias para que a pessoa possa encontrar soluções, de forma autónoma, para as dificuldades e questões, que o fizeram procurar acompanhamento psicoterapêutico. 

Embora não seja o objectivo deste texto uma revisão exaustiva do modelo, segue uma breve descrição das etapas:

- Apresentação de Hipnose - o modelo de Valência assenta numa perspectiva Cognitivo-Comportamental, onde as expectativas, crenças, motivações e mitos são importantes para a clarificação do conceito de Hipnose e para a eficácia de adesão da pessoa. Ao mesmo tempo, Hipnose é uma ferramenta coadjuvante de Psicoterapia, o que significa que o terapeuta deve apresentar uma explicação do que é Hipnose e mostrar-se disponível para responder a dúvidas;

- Avaliação Clinica de Sugestionabilidade Hipnótica - na perspectiva do modelo, a avaliação das crenças do sujeito face a Hipnose e ao terapeuta são devidamente avaliadas. O objectivo é que a pessoa colabore activamente no processo. Nesse sentido, são realizados alguns exercícios de sugestionabilidade, de modo a avaliar a cooperação do sujeito. Estes pontos são mais importantes do que avaliação de um nível de "profundidade" hipnótica;

- Auto-Hipnose Rápida - para o modelo de Valência, apresentar a experiência de Hipnose como Auto-Hipnose permite que a pessoa possa colaborar sem receios, participe no processo psicoterapêutico e ofereça uma sensação de controlo interno. Ao mesmo tempo, irá fortalecer a intervenção de "Hetero"-Hipnose. Esta técnica apresenta-se como rápida, com os passos estruturados para uma melhor aprendizagem, fácil de ser aprendida e as auto-sugestões são dadas de olhos abertos;

- Metáfora Didática - a apresentação desta metáfora, após o processo de Auto-Hipnose, permite consolidar que Hipnose não é perigosa, a pessoa necessita de esforço e preserverança para mudar e que esta ferramenta é um auxiliar importante para a mudança. Nesse sentido, são apresentadas situações complexas em que a pessoa consegue ultrapassar, graças ao seu esforço;

- Prática e Treino das Sugestões - como forma activa de envolvência no processo, é incentivado que a pessoa pratique as sugestões, de modo a que possa interiorizar e automatizar as mudanças pretendidas;

- "Hetero"-Hipnose - dentro deste modelo, Hipnose é realizada de uma forma Activo-Alerta, pressupondo activação fisiológica e expansão da mente e sentidos. De modo a atingir este estado, é solicitado um movimento repetitivo com a mão dominante do sujeito, até esse movimento se tornar automático. Ao mesmo tempo, são dadas as sugestões hipnóticas de activação e expansão, podendo a pessoa andar ou falar com o terapeuta;

- Sugestões Terapêuticas - como não poderia deixar de ser, as sugestões terapêuticas são dadas à medida das necessidades da pessoa e do que a trouxe, ao contexto psicoterapêutico.

Em conclusão, não pense que a única forma de entrar em Hipnose é fechando os olhos e relaxar! Hipnose tem muito mais do que isso. Pense que pode estar a correr e hipnotizado!

Se pensar bem, nós somos hipnotizados todos os dias, em vários momentos!

 


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