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É impressionante a quantidade de frases inspiracionais que conseguimos encontrar na net, em particular nas redes sociais. Apesar de terem diferentes autores, quase todas essas frases têm algo que as liga: Temos de Pensar Positivo para sermos felizes! E o resto das emoções? Onde ficam elas?

A evolução fez com que a nossa espécie desenvolvesse dois grandes sistemas. Por um lado, o ser humano é capaz de sentir emoções. Mais do que sentir, o ser humano é o único animal que consegue atribuir um significado a cada uma destas emoções e viver agindo em conformidade com essa significância. Por outro lado, somos a única espécie que tem a capacidade de gerar pensamentos, raciocinar aplicando lógica e ter a capacidade para tomar decisões.

Se for um apreciador de séries televisivas, talvez se recorde de uma chamada "Verdade da Mentira" ou pelo seu nome original "Lie to Me". O protagonista dessa série era um homem chamado Cal Lightman, psicólogo e especialista no campo das emoções e linguagem não-verbal. Juntamente com os seus colegas, o trabalho de Lightman era perceber se as pessoas estavam a mentir, a partir das emoções que expressavam, de forma não verbal, através de expressões e micro-expressões. 

Talvez não saiba que, embora a personagem Cal Lightman seja ficticia, a sua construção foi baseada na vida e trabalho de Paul Ekman, psicólogo e conceituado especialista na área das emoções. Durante os anos 70, Ekman estudou várias tribos indígenas afastadas da sociedade moderna. O trabalho de Ekman permitiu concluir que, apesar da falta de socialização e acesso à cultura dos países modernos, estes elementos das tribos eram capazes de recorrer, instintivamente determinadas emoções, o que levantou a hipótese se trata de algo inato. 

Ekman e colegas estabeleceram 6 emoções primárias. Estas emoções estão biologicamente associadas ao ser humano, são inatas e universais. Estas emoções são então Alegria, Medo, Tristeza, Raiva, Nojo e Surpresa. A estas emoções primárias, o ser humano tem a capacidade de aglomerar combinações de emoções, dando suporte a sentimentos. 

Durante o nosso dia e vida, nós somos capazes de sentir todas estas emoções, visto que estamos programados para tal. Como comecei por dizer, também somos capazes de atribuir significado ao que sentimos. Essa construção de significado é realizada através da nossa experiência, dos nossos modelos, do processo de aprendizagem, da formulação das nossas crenças, valores e atitudes. 

É esta atribuição de significado que é tão importante para a nossa experiência de vida e Saúde Mental. Tão importante que, de facto, muitas teorias e modelos terapêuticos dão grande enfâse às emoções e à sua atribuição. Mesmo os modelos que na sua génese não valorizavam tanto as emoções, começam agora a rever a sua posição. Só para dar um exemplo simples, na maior parte das vezes, associado a uma Perturbação de Ansiedade, encontra-se um medo irracional!

Pela sua própria natureza, as emoções são neutras. Elas não tomam partidos! O que irá ser importante é a sua utilização adaptada ao contexto em que nos encontramos. 

Imagino que seja difícil para si, com todo este bombardeamento do desenvolvimento pessoal e afim, acreditar que não existe propriamente uma carga positiva e negativa. Pondere neste exemplo. Imagine que está a passear por uma floresta, num belo dia de sol. A temperatura está ideal e você consegue sentir o calor agradável dos raios de sol sob a sua pele e a leve brisa a percorrer. De súbito, você ouve um barulho. Primeiro ao longe e, à medida que o tempo passa, esse barulho vai ficando cada vez mais perto. Até que chega a um momento em que você tem um urso à frente! Esse enorme animal selvagem a poucos metros de si! Sem que você se aperceba logo, o seu coração começa a disparar, o seu corpo começa a tremer, a sua mente começa a gerar estratégias para fugir da situação! Você começa a sentir MEDO!

Agora deixo a pergunta. Face a esta situação, sentir medo não seria natural? Não iria proteger a sua vida? Não seria algo "positivo"? Pois seria!

O final do Séc. XX e este século vieram inundar as nossas cabeças desta treta que é o positivo e negativo e, sobretudo, desta coisa de "Pensar Positivo!". Quase que parece que emoções como a Tristeza, o Medo e a Raiva são algo prejudicial para a nossa vida e, como tal, devemos evitá-las. A verdade é que isto é falso! 

Permitirmo-nos experienciar Medo, Tristeza e Raiva, quando a situação assim o exige, é totalmente aceitável e mais, é totalmente saudável! Este tipo de "pensamento positivo" faz com que nos afastemos do que é normal e que desenvolvemos uma adversão a sentir, apenas porque pode ser "negativo"! 

Ao mesmo tempo, esta posição faz com que a nossa Saúde Mental fica mais fragilizada, ao ponto de surgirem Perturbações e barreiras ao bom desenvolvimento emocional. 

O que os gurus do desenvolvimento pessoal e todas estas tretas "new age" fizeram é deturpar o significado da expressão e de onde surgiu. O pensar positivo vem de colocar o foco nas soluções, quando as barreiras surgem. Soluções credíveis, realistas e bem operacionalizadas.

Não é deixar de sentir determinadas emoções, é reconhecer o que estamos a sentir, dar significado, aceitar, gerir os comportamentos que daí advém e focarmo-nos nas soluções, em como podemos ultrapassar estas barreiras. 

 


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